“1984”, de Michael Radford
(Inglaterra, 1984)

 

 

 

Esta reflexão ocupa-se com questões referentes ao trabalho humano no filme “1984” de Michel Radford. A obra é uma alegoria sobre o totalitarismo. Neste ambiente as formas de trabalho são controladas com rigidez pelo Estado. É uma narrativa sombria, transcorrida em um futuro que seria o ano de 1984, onde as pessoas estão submetidas à vontade onipresente do Estado figurado no controle do Grande Irmão. O Estado anula a individualidade e os desejos de cada indivíduo. Winston Smith, personagem central, trabalha no “Ministério da Verdade” re-escrevendo artigos catalogados de jornais e revistas. Wiston conhece, apaixona-se e relaciona-se com Júlia, desafiando, assim, os princípios ideológicos do Estado, que reage disciplinarmente contra eles.


O filme “1984” de Michael Redford é uma adaptação do clássico homônimo de George Orwell. O romance de Orwell foi publicado em 1949 e considerado por muitos intelectuais uma obra anticomunista. Do mesmo autor, encontra-se também a obra A Revolução dos Bichos, de grande sucesso. Por volta de sua publicação, 1984 toma, ainda, contornos maiores. O mundo está vivendo os primeiros anos da Guerra Fria e o ocidente enxerga o comunismo soviético como uma ameaça monolítica mundial. Nos anos cinquenta, ocorre a Guerra das Coréias onde o mundo presencia um suposto método dos comunistas de impor suas ideologias através de “lavagem cerebral’. Não faltaram oportunidades aos críticos e estudiosos de alinhar os acontecimentos políticos com a longa e terrível cena em que Winston Smith, o protagonista, é terrivelmente torturado e sofre uma “lavagem cerebral’.

Vivendo sob um governo autoritário e que tem o controle total sobre cada ação dos cidadãos, proibindo qualquer tipo de emoção, o burocrata Winston Smith enfrenta problemas ao se apaixonar por Julia. Antes de falar a respeito do filme e da relação que ele estabelece com o mundo do trabalho, pretendo apontar algumas questões acerca da obra e analisar os personagens centrais da trama: Winston e Júlia. A obra de George Orwell marca uma visão de mundo diferenciada pela proposta provocatória. Escrita em 1948, descreve uma Inglaterra imaginária dos anos oitenta, de maneira específica: o mundo em 1984.

Toda a sociedade é rigidamente controlada pelo Grande Irmão. O Grande Irmão é o governante de Oceania. Ele está constantemente observando todos os partícipes do Estado. As ações externas e internas de cada cidadão são devidamente controladas pela polícia do pensamento e por todas as instituições do partido. Tudo gira em torno do Grande Irmão. A obra descreve uma antiutopia, pois trata a sociedade pós-guerra de maneira crítica e bruta, reduz a natureza humana à ação vertical de poder tirânico e de opressão. A organização social imposta pelo partido é conduzida unicamente por uma razão instrumental, mostra-se o descarte da religião e das emoções, além do controle rígido da história e da linguagem.


Através da antiutopia, Orwell mostra, em certo grau, a eliminação do humano através de sua negação. O homem deixa de ser aquilo que é por natureza e passa a assumir uma postura “robótica”, de acordo com os princípios impostos pelo “Big Brother”. Como diria Kant (1985), em Beantwortung der frage: was ist Aufklärung, o homem é culpado pelo estado de menoridade em que se encontra e, neste caso, o Estado é condutor da menoridade e impede que o indivíduo pense por si, atingindo a maioridade, conforme é mostrado no discurso inicial do filme.

Filmado por Michel Radford, o filme é montado a partir do livro de mesmo nome de George Orwell. Por princípio, o esforço bélico é sempre planejado para manter a sociedade permanentemente em inanição. A guerra é feita pelos dirigentes contra seus cidadãos e seu objetivo não é a vitória sobre a Eurasia ou Estasia, mas manter intacto o equilíbrio da sociedade. Não se pretende, aqui, fazer uma análise aprofundada das inúmeras questões que estão presentes no texto e na filmagem que são por demais interessantes, mas almeja-se focar o universo do trabalho e como este se liga ao contexto político dominante que circunda os habitantes de Oceania.

O recorte é necessário porque tanto o filme quanto o livro trabalham inúmeras questões, porém este não é o norte que este ensaio pretende ter. O universo do trabalho apresentado em 1984 é um mundo marcado pelo duplipensar (Duplipensar é a capacidade de armazenar duas crenças contraditórias e aceitar ambas, um termo da Novilíngua. A Novilíngua é o idioma oficial de Oceania. Ela é uma versão reduzida do inglês.  É usada em artigos internos e oficiais do governo, embora os habitantes usem o inglês tradicional para se comunicar).

 


O duplipensar não marca apenas crenças, mas os ministérios do governo como, por exemplo, o personagem principal da obra Winston Smith trabalho, no Ministério da Verdade, que conta mentiras. O Ministério do Amor é o responsável pela morte dos indesejados, pela difusão do ódio e por “curar” os que o Estado considera perigosos.

O Estado oferece uma vigilância continuada. Michel Foucault (2004), ao analisar a questão do poder em Ética, Sexualidade e Política, afirma que a humanidade está passando por um momento onde se criou uma necessidade extrema de ser governado. Somos governados em demasia e isto é produto de um processo histórico ocidental onde o tema central da política é a segurança.

Em 1984, usando a guerra, o Estado e o Partido oferecem momentos de segurança por meio de um controle perene. São transmitidos pela teletela (tele screen) longos discursos que dão uma falsa ideia de segurança (a teletela é um tipo de comunicação bidirecional. Funciona como uma câmera de vigilância e televisor. Em todos os cantos de Oceania há teletelas que não podem ser desligadas).

O pensador Carl Schmitt (2006), diz que o discurso político da segurança é uma das características políticas do século XX. Foucault (2004), na obra já citada, afirma que há uma ética do cuidado de si que se dá através da necessidade de vigilância, um controle excessivo do governo sobre o indivíduo nos dias de hoje. Ao entrar em shoppings, escolas ou em fábricas, evidencia-se uma banalização de um aviso que, ao mesmo tempo, parece ser simpática e ameaçadora: sorria, você está sendo filmado! O modelo disciplinar de 1984 ultrapassa as páginas do texto e toma contorno existencial na civilização atual.  A teletela deixou de ser uma aberração da ficção e tornou-se uma espécie de “sou filmado, logo existo”.

 


1984 não se trata apenas de um filme criado a partir de um livro como tantos outros, mas  propõe uma discussão de ideias filosóficas juntamente com o passar da história. Não é só uma antiutopia, mas uma reflexão diante do horror que o totalitarismo pode vir a representar na história da humanidade.

No totalitarismo, encontramos o trabalho com uma representação de poder repressivo que submete a ação humana a uma ação irracional repetitiva diante do controle sistêmico imposto pelo Grande Irmão. A ação sistematizada do dominador transforma exterior e interiormente os indivíduos e seus desejos. Desejos que são anulados por conta de um trabalho autorregulador que reprime cada vontade que possa ser sentida, porque, no fundo, a linguagem do Estado é uma linguagem que expressa a noção de liberdade através da escravidão desenvolvida pelas formas de trabalho em Oceania, conforme veremos mais adiante.

Para entender melhor a análise a que este ensaio se propõe, é preciso conhecer a ação dos personagens que compõem o universo simbólico do filme. Observa-se, de modo especial, o casal protagonista do romance: Winston Smith e Júlia, interpretados, respectivamente, por John Hurt e Suzanna Hamilton. Vejamos individualmente algumas ideias referentes ao casal.

Winston Smith é caracterizado por uma mentalidade cerebral e ao mesmo tempo melancólica. Está numa constante busca pelo seu passado pela sua história. Esta atitude é contraposta àquilo que o Grande Irmão pretende para os partícipes do Estado, que é a anulação do indivíduo.

No decorrer da trama, entretanto, Winston trabalha no Ministério da Verdade. Como citado anteriormente, vive sozinho, já fora casado, mas seu relacionamento não obteve sucesso.  Na solidão de sua casa, registra seus devaneios num diário que fora adquirido num antiquário. Como tais registros não são permitidos pelo Estado, procura fazê-los de tal modo que a teletela não possa visualizá-los e esconde-os num fundo falso na parede de sua casa.

Winston encontra Júlia. Antes do encontro durante algumas vezes ele a observa no seu trabalho. Julia pode ter até o dobro em idade, talvez. Esbarram-se num corredor e, discretamente, Júlia traz à mão um papel e lhe entrega. O papel fora escrito quase que de maneira infantil, mas com uma mensagem bem direta e sedutora: "Te quero”. Winston procura-a durante algumas semanas até encontrá-la na Trafalgar Square, e lá marcam um próximo encontro.

Os primeiros encontros amorosos acontecem em bosques na periferia londrina e, posteriormente, alugam um quarto do prédio do antiquário para poder desfrutar de um prazer que é proibido pelo Estado. Winston tem consciência de que ao ceder aos braços de Julia está entregando-se possivelmente à morte ou à condenação diante das penas estabelecidas pelo Estado.

O ponto final da trajetória de Winston no filme é o encontro dele com O’Brien,  um astuto membro do Partido com verdadeiro poder. Ele oferece a Winston o mais novo exemplar do dicionário Novilíngua e o convida a ir para sua casa. O’Brien poderia representar a figura do político corrupto, sem índole, que joga em dois campos ao mesmo tempo. Oferece a Winston o dicionário, mas em suas páginas encontra, também, as ideais de Goldstein – inimigo ideológico do Estado (Goldstein é um ex-partidário do INGSOC. Afastou-se por não concordar com as ideias de dominação do partido. Afastado, escreveu um livro denunciando as ações do Grande Irmão.  Ao longo do filme é acusado de terrorismo e é veementemente pelo Estado nos discursos públicos).  Winston degusta as páginas do livro proibido, lê para Júlia. O “herói” é, então, descoberto pelo Grande Irmão através da teletela.

Diante dos fatos, Winston e Júlia são detidos e conduzidos ao Ministério do Amor, "o lugar do que nunca se apaga a luz", conforme define O'Brien. Winston sofre a tortura física e psicológica a que o Estado submete todos os que transgridem as normas. Depois de vários dias de tortura, Winston grita a pleno pulmão, depois de um pesadelo, o nome da pessoa que ama. Poucos dias, semanas ou meses depois,  O'Brien o conduz ao apartamento 101, onde submete Winston ao pior de seus medos, os ratos, e grita desesperado que interroguem Julia (O apartamento 101 é o lugar do Ministério do Amor, onde os acusados pelo Estado são "convidados" a visitar e saem negando as suas convicções e a si mesmo em nome do Grande Irmão). O protagonista é submetido a uma tortura e este deixa transparecer todo ódio que sente e, no desespero, nega seus ideais, desejos, vontades e até o amor que sente por Júlia.

Júlia é a personagem que se envolve amorosamente com Winston Smith.  É singular, mas a descrição não é tão direta como a de Winston. “Quem é Júlia?” Poderia ser uma pergunta interessante para nortear esta reflexão. Trata-se de uma militante das causas do partido externamente e interiormente. Alguém que busca corromper diversas normativas e orientações do partido, principalmente da cintura para baixo. Mora numa pensão junto com outras moças do partido e trabalha do Departamento de Ficção. Participava ativamente da Liga Juvenil Antissexo. Seu comportamento nos encontros com Winston pode sugerir que tudo gira em torno de sua própria sexualidade.

Mesmo com todas estas características, ainda é possível manter a pergunta “Quem é Júlia?”.  A personagem é uma mescla de sentimentos e de desejos banidos pelo partido. Segue as regras a fim de conhecer-se melhor. Conhecendo-as, descobre, também, suas fragilidades (o seguir as regras não é um opção livre, mas uma questão de sobrevivência). A prática tirânica de poder do Estado não retrata a infalibilidade do poder. Júlia se comunica com Winston por meio da multidão, usa os espaços públicos para conseguir um momento de privacidade, usa aquilo que o Estado oferece como mecanismo de negação do próprio Estado. Nos braços de Winston, ela deixa de ser uma partidária e consegue, por instantes, ser mulher.

 


A contradição da atitude de Júlia mostra que a ação de domínio e de poder do partido sobre toda a população deixa pequenas brechas, embora o partido quisesse controlar demasiadamente o passado e a história, conforme é sugerido no início do filme. A sensualidade feminina e os desejos pela conquista amorosa estão presentes em Júlia: “neste quarto serei mulher, não uma militante do partido”. Este trecho é mais do que uma fala, é um grito contra toda opressão. A educação de Júlia é a educação do partido, sua formação militante é a do partido, então, de onde vem este sentimento de ser mulher? Ela é filha da revolução, nunca dormira em uma cama de casal, não conheceu o mundo anterior a revolução. Mas mantém em si traços de humanidade porque se trata de um barril de sentimentos prestes a explodir numa cidade em caos pelas explosões bélicas. Júlia é simplesmente humana – algo repudiado pelo controle do Estado. A busca pelo ser mulher a fez transpor limites e ir além daquilo que é próprio, foi até as proles buscar um jogo de cosmética.

A prole não possui um significado de importância na construção do Estado e as ações de Júlia estão à margem e representam um submundo. Mas o desejo de dar um significado a si mesmo, faz com que busque naqueles que representam o submundo a construção da identidade que foi expurgada pelo Partido. Seu encontro militante com a Júlia mulher não é o encontro imposto dentro dos limites do Estado, mas é o mascarado pelo submundo. Neste encontro ela busca mais que um jogo de cosmética, almeja o encontro da felicidade. Mas o desejo pela felicidade não a satisfaz, ela quer mais. Sabe que a morte e a condenação são um risco iminente, mas que possui um sentido, coisa que para ela não está no Estado.

A ação de Júlia é uma ação que possibilita a percepção de que o Estado moderno não pode ser uma figura tão centralizadora e dominante. O poder do Estado possui limites e não pode ser uma razão coletiva opressora. Outra leitura que ainda é possível ser tecida é que embora haja uma ação racional rígida, os desejos não são banidos por completo. O que difere Júlia da maioria dos partidários é que ela não se deixou desumanizar completamente e assumiu para si uma necessidade de ser e de sentir. Esta necessidade se mostra nas tentativas de transcender as regras.

A voz da teletela por detrás de um quadro oficializa a voz de prisão. Júlia e Winston saltaram de pé, de costas, nus sentindo. O medo assumia a forma de suor e de pernas bambas que tremiam sem parar. Antes da prisão estavam lendo as teorias de Goldstein e sonhando com a liberdade. A voz férrea de ordem faz o sonho ceder lugar ao medo. A esperança desaparece e se apaga por conta da insegurança. A voz da teletela é a voz do caos que impede o livre pensar. Pensar? Não, temer! No instante do tempo Júlia ainda é humana: é melhor a gente se despedir, diz ela. No momento da prisão, deve passar pela cabeça de ambos que agora serão os protagonistas das longas sessões de torturas. O que sempre ouviram como história está prestes a se personificar. O medo se mostra na postura deles, mas para vencê-lo, Júlia arrisca um sopro de humanidade, a despedida. O adeus não é o da separação, mas é o adeus fruto de uma escolha, a escolha de superar as agruras do sistema em busca de um ideal: o de humanidade.

O crime foi escolher um ideal diferente do que é imposto pelo poder do Estado. O ideal de Júlia não é o do partido.  Estão condenados. Após a prisão seguem as torturas e Júlia sai de cena. Toda a apresentação da tortura é centrada no sofrimento de Winston, física e moral. A tortura busca confirmar a ideologia do partido, é preciso limpar o comportamento. Embora o autor tenha como figura central Winston, é possível pensar também na tortura de Júlia.

O processo de tortura é o de desumanização. A ação do partido é a ação de uma imposição, a imposição da negação da humanidade. Os sentidos, as vontades e os desejos desaparecem junto com a história. Se Júlia fora num momento uma pessoa com o desejo de ser mulher, com a tortura deve se tornar uma “impessoa”. A dor busca sacramentar a negação externa e interna de tudo o que sentira anteriormente. A busca de si é vista como um crime e algo sujo, tão sujo como o ambiente de Oceania. Não basta confessar, é preciso se despir da humanidade e perceber que qualquer vontade é inútil diante do partido, que se desvela na dor. A negação da própria humanidade em favor da afirmação do Estado. Na parte final do filme, a humanidade de Júlia parece ter sobrevivido à tortura. Apenas parece.

O companheiro de Júlia não era mais o mesmo. Ele a traiu, ela também o traíra. O encontro pós-tortura do casal não é mais o encontro do amor e do desejo. É o do frio regado a gin. Surge um diálogo sobre o encontro. A sugestão de Júlia, por míseros segundos, seria um novo começo. Mas Winston não estava mais disposto a relutar contra o “Big Brother”, aceitava-o. Júlia não era mais um barril de sentimentos, como fora antes. O que acontecera? O Estado terminara o processo de desumanização? Talvez. Winston a seguiu por meio da multidão tentando seguir a humanidade, mas em seus passos não havia mais uma esperança como na primeira vez, perde-se de Júlia, perde-se da humanidade. Onde fora parar Júlia? Ela entrou na estação do trem subterrâneo. Estações de trens são marcadas por encontros e despedidas, partidas e chegadas, é o lugar da mudança.

Após a tortura o casal não é mais o mesmo. Ela representou uma estação.  Mas no fim haveria ainda uma ponta de esperança no encontro, mas ele não ocorreu. O que aconteceu com Júlia? Podemos imaginar que buscara outro homem, outra vida ou continuara na vida desumana proposta pelo Estado. Mas em Júlia, diferente de Winston, no final, encontra-se uma linha tênue que faz a humanidade estar presente mesmo dentro do processo de desumanização – um resto de humanidade. A mulher é o sinal de que tal possibilidade pode existir, a linha tênue da esperança e da felicidade. Esta última só pode ser um sentimento humano, mesmo de janelas fechadas é sempre cheio de luz.

 “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o futuro, controla o passado”(no original, no filme: ”Who controls the past controls the future, Who controls the present controls the past”). É assim que começa a obra. Com uma frase a respeito do tempo. Tempo que estará direcionando uma multidão que se depara diante do Grande Irmão que, no filme, representa o poder supremo. Poder exercido sobre todos os governados que estão sob domínio deste império, “poder é desfazer a mente humana”. Numa cena de tortura, o torturador procura justificar a dor através da prática da tortura como um instrumento que dá validade ao mecanismo de poder. O império vai além das figurações de domínio externo, é um domínio sobre o interior do indivíduo e neste interior há uma determinação sobre o tempo e a desumanização. O controle é o foco central de todas as ações determinadas pelo Grande Irmão.

O poder sobre o tempo e o poder sobre os homens dar-se-á através de uma orientação estrita sobre o papel que cada indivíduo desumanizado deverá desempenhar dentro da sociedade do controle. A sociedade estranhada usa o trabalho alienado como um instrumento de manutenção do poder. Sem ele, Oceania não existiria. O estar de pé do Grande Irmão é sustentado pela força do trabalho daqueles que estão submetidos ao jugo do Estado.

Na primeira cena onde há uma grande reunião, na telela bidirecional, o Grande Irmão parabeniza os esforços dos trabalhadores que ajudaram na construção de Oceania, ele está valorizando o feito de cada qual. A guerra, inclusive faz parte do trabalho. Ela é o caminho para a conquista daquilo que o Partido propõe e o discurso é o caminho para uma catarse, onde a ação humana desumanizada é fruto de um controle soberano e perene. Terminada a fala do Grande Irmão, cada trabalhador que se encontra na grande reunião deixa o ambiente e se dirige para a mesa de trabalho. Na mesa de trabalho há uma teletela que exerce um controle permanente sobre cada funcionário.

Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, e ele é responsável por verificar edições já publicadas de jornais e revistas adequando àquilo que está acontecendo no tempo presente, segundo o Estado. Ele revê o passado e o enquadra no presente. Aquilo que não está conforme o esperado é destruído, apagado e alterando.

O trabalho alienado aliena a história, ele não tem consciência de si e destrói o que poderá ser um instrumento para atingir a maioridade. Não há tempo passado, apenas um controle demasiado sobre o presente. Após a jornada de trabalho, Winston sai do departamento e vai para casa. No caminho há som das falas do Grande Irmão. Ao chegar a casa, há a teletela que continua a transmissão das falas do Grande Irmão.

A vida dentro de Oceania é uma continua presença do Grande Irmão. Não existe um momento de abandono, de interiorização, de pensar sobre seus atos, a voz e os sons da sociedade de controle estão a todo instante diante dos indivíduos. O privado e público se fundem numa única instituição e esta não está nas mãos de cada indivíduo, mas nas mãos do Estado controlador. O controle sobre o indivíduo é pleno, o que ele faz é monitorado constantemente. A sociedade de controle determina todas as ações criando um crivo estadista sobre as possibilidades morais. O indivíduo da sociedade de controle é voltado ao trabalho. Para um trabalho repetitivo, desprovido de um sentido lógico e de continuação daquele ou da ideologia que controla o poder, é desumanizante.

Afirmar através das ações de Winston que o indivíduo de Oceania é um indivíduo para o trabalho poderia ser uma afirmação precipitada e generalizada, mas não o é. Tal afirmação é possível diante da rotina estabelecida, não só pelo personagem, mas como também por todos os outros partícipes do local. Há uma rotina estranhada que permite observar que é um ser para o trabalho: trabalho, casa e trabalho – uma rotina alienante. Não há perspectivas de outras ações e, mesmo que o indivíduo a busque, esta alternativa se constitui numa forma voluntária de trabalho para o Estado.

Na cena que Winston está almoçando com um colega, a teletela está apresentando índices econômicos e conquistas bélicas, e a conversa divaga sobre o papel que cada um desempenha durante a jornada do trabalho e das intenções do Grande Irmão. O trabalho é uma manifestação das ações do Grande Irmão. Não há outro significado senão a manutenção dos ideias da sociedade que está imposta. Quem está fora deste esquema não é tomado como ser humano. A humanidade reside no fato de pertencer e assimilar as ideias da sociedade de dominação que procura desumanizar os indivíduos.

Winston se apaixona por Julia. Mas como se dá o encantamento entre ambos? A primeira troca de olhares acontece dentro do ambiente de trabalho, na sala do discurso inicial, na mesa do almoço coletivo até o primeiro bilhete que é trocado no caminho ao trabalho. Após recebê-lo, dá-se início ao romance. Winston se questiona: “tudo que sei é que ela trabalha na seção da esquina, provavelmente nas máquinas de escrever novelas proletárias”. A ideia de localização, ocupação e espaço utilizada por Winston é uma noção do campo de trabalho. O trabalho, além de determinar a “pseudo humanidade”, determina marcações espaciais.

No primeiro encontro amoroso, ele está na estação de trem esperando para vê-la e, na plataforma, está a teletela do Grande Irmão. O Grande Irmão não controla apenas o trabalho, mas também toda a ação das pessoas em todos os momentos: de trabalho e de não trabalho. Não há ausência de seu olhar ou de sua voz, onde está o indivíduo está o Grande Irmão e o estar não significa a possibilidade de existir o indivíduo, o que o Estado sugere com o controle seja a negação do indivíduo em todos os seus momentos.
Quando Winston aluga um quarto para seus encontros amorosos com Julia, ela tira o uniforme do estado, põe um vestido e afirma: “neste quarto quero apenas ser mulher”, e é possível ir além, Júlia quer afirmar que no quarto ela quer ser mulher não, trabalhadora. Num estado de dominação onde trabalho, amor, sexo e qualquer devaneio são controlados por um poder central, a ideia de construção individual desaparece. Mas Júlia, num diálogo com Winston, responde a ele: nada é real.

A uniformização e a centralidade do comando têm outro objetivo senão a negação da realidade. A ação de Júlia mostra o duplipensar. Tudo deve estar sob controle do Estado. “O mais importante não é manter-se vivo, é manter-se humano”. Mas como se manter humano num estado onde há uma constante negação de humanidade e da realidade? E ainda, onde os valores e os prazeres estão pré-determinados? Estas questões movem Winston a uma busca, mesmo sabendo que esta busca destruirá o pouco resquício de vida que ainda lhe resta. Porém, para buscá-lo terá que transcender o mundo do trabalho

Winston é convidado por O’Brein para um encontro em sua casa. O’Brien é funcionário do Partido do Interior e oferece a Winston o último exemplar do dicionário Novilíngua. O’Brien seduz e trai, protege e destrói Winston. O partidário será o mentor da captura e da re-educação de Winston.

Winston e Júlia são capturados e levados para o “Ministério do amor”, onde serão reeducados para que assumam seus crimes, neguem a motivação de humanização e aceitem o Estado como única fonte de verdade e salvação. O Estado possui um caráter sagrado e religioso que traça um caminho de salvação para cada ser que nele está. Mesmo que num processo de desumanização, ele se oferece como “caminho, verdade e luz”. O caráter salvífico do Estado fica evidente nas cenas de guerra. O sacrifico do cordeiro imolado que se entrega à paz: a guerra é à paz. Só que tal sacrifício não leva à maioridade. Tais mecanismos apenas instrumentalizam o processo de desumanização através da falsa ideia de salvação.

A prisão e tortura de Winston reforçam a negação do indivíduo que jamais poderá chegar ao esclarecimento. Não é apenas um processo de “limpeza intelectual” que o Partido promove em seus condenados ideológicos, mas uma “revitalização” do indivíduo ao mercado de trabalho de Oceania. A tortura e o processo de “re-educação” não caminham apenas para a morte, mas procuram reorientar o indivíduo afim de que ele negue o ideal de liberdade negando a si mesmo; assume com verdade dogmática a proposta política do “Grande Irmão”, ou na linguagem do Estado, é uma cura que o Estado oferece aos pobres de espírito.

A re-educação do Estado trata o indivíduo como um objeto que não é capaz de pensar por si, deve pensar o que o Grande Irmão e o Partido determinam. Mas não é só pensar, é assumir, criar uma identidade estatal tomando todos os princípios como verdadeiros. Este assumir justifica o trabalho no Ministério da Verdade. Winston, em seu trabalho não deve pensar por si, deve apenas rever aspectos históricos e dar um caráter de verdade de acordo com o discurso do Estado. O caráter de verdade não se preocupa como fato em si (já que não há), apenas os dados e as informações que são de interesses do Estado, não há realidade senão uma perspectiva criada para se controlar o passado, o presente e o futuro. A dominação presente no filme 1984 busca transcender todos os aspectos constituintes do espaço humano.

 


Como uma anti-utopia serviria para refletir acerca dos problemas do mundo do trabalho? Esta pergunta poderia estar presente no início deste texto e, para respondê-la se fazem necessárias algumas ponderações. A obra homônima de George Orwell não é apenas um olhar político a partir do totalitarismo ou uma discussão sobre a guerra e suas consequências, ela mostra uma proposta de como o Estado se relaciona com os indivíduos a partir do mundo do trabalho e como um instrumento manipulador pode controlar as ações humanas e suas possíveis consequências. Essas conseqüências foram apontadas no filme e ponderadas ao longo deste texto.

A reflexão do mundo do trabalho em 1984 implica nas condições de vida e no estado psicoafetivo de cada personagem, conforme foi possível perceber nas análises de Winston e de Júlia. O trabalho exercido por Winston consiste numa constante alteração da história e da verdade. O mexer e o alterar levam-no a questionar a construção da realidade que o circunda. O mundo de Oceania é um espaço em que não há passado nem futuro, onde o presente se perpetua na perenidade no ato de reescrever a história. A ausência da questão temporal implica diretamente no estado psicoafetivo dos personagens.

Há mais do que um sentir, há um grito constante, embora que silencioso, da afirmação do “eu” de cada personagem. Na angústia de buscar a si, cada qual mergulha na repetição, própria do trabalho e da vida cotidiana, chegando à nulidade de cada ser. Controverso? Se Oceania não estivesse mergulhada no duplipensar seria, mas esta forma contraditória e confusa é sempre presente na formação psicoafetiva em seus habitantes. Há uma dicotomia entre a busca e a negação do ser e esta dicotomia gera a angústia que foi mencionada neste parágrafo.

Se o Estado busca tal negação para o indivíduo, encontramos no mundo do trabalho a afirmação do poder do Estado. Uma afirmação que está para a negação do indivíduo. Nega-se a partir da banalização do “sorria, você está sendo filmando”. O grande crime de Winston na obra fora a tentativa de pensar por si próprio. Ele buscou concretizar a Aufklärung. Mas a passagem foi severamente cortada a partir da teletela que o observara constantemente. Não há concretização da Aufklärung. Se houvesse, o final da história não mostraria um personagem submisso, com um comportamento digno de cordeirinho governado em demasia, como diria Foucault (2004) e Schmitt (2006). Winston realiza uma busca, porém não a conclui. Na ausência de conclusão, volta a sua vida mórbida e a prestação de trabalho para o Ministério da Verdade.

“Sorria, você está sendo filmando”. Algum leitor atento poderia afirmar que esta expressão não aparece em nenhum momento do filme e é repetida algumas vezes no texto. Fato! Não aparece no filme porque não há necessidade do anúncio, todos vivem na ilusão criada pelo Grande Irmão, aceitando a teletela como uma normalidade, um fato corriqueiro, rotineiro. Não há aviso porque há aceitação e, como diria Foucault (2004), há uma necessidade de ser governando em demasia. O terror criado a partir da aceitação submete a razão humana a práticas vivencias e à práxis no mundo do trabalho, onde o poder totalitarista determina o modo de ser dos indivíduos. O poder se mostra na sua amplitude máxima através da teletela com o dizer O Grande Irmão zela por ti. Tal frase demonstra que não há como atingir uma maioridade dentro de Oceania.
O mundo do trabalho apresentando em 1984 não é apenas um relato assustador e exagerado da condição humana. Há elementos nele presentes que se aproximam de nosso dia-a-dia. A obra nos oportuniza uma reflexão acerca do ser humano no mundo do trabalho e como este ser pode vir a se relacionar com a questão do poder num estado onde guerra é paz; liberdade é escravidão e ignorância é força.

REFERÊNCIAS

FOLHA DE S. PAULO. Caderno Folha Mais! Orwell Reloaded. Edição especial de 100 do nascimento de George Orwell. São Paulo, domingo, 1° de junho de 2003.
FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade e Política. Rio de Janeiro: Forense, 2004.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é "Esclarecimento"? Tradução de Floriano de Sousa Fernandes, in: TEXTOS SELETOS; Petrópolis: Vozes, 1985, p. 100-117 (Textos clássicos do pensamento humano/2).
MIGUEL, Rui. 1984: um texto célebre de George Orwell e um filme quase desconhecido de Michael Radford. Lisboa, 1999. 25 f. Trabalho de graduação (História da Filosofia da Educação) – Licenciatura no ensino de Física e Química, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
ORWELL, Georges. 1984. 21ª Edição. Série Biblioteca do Espírito Moderno. São Paulo: Editora Nacional, 1989.
__________. 1984. Lisboa: Edições Antígona, 1991.
__________. Literatura e política: jornalismo em tempos de guerra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
__________. Lutando na Espanha: homenagem à Catalunha, recordando a guerra civil espanhola e outros escritos. São Paulo: Globo, 2006.
SCHIMITT, Carl. Teologia Política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006.

 

 

Albio Fabian Melchioretto é professor em Blumenau (SC).

Artigo escrito para o curso de Curso de extensão universitária à distância
“A Precariedade do Trabalho no Capitalismo Global: O mundo do trabalho através do cinema” - 31/05/2010