“Idiots and Angels ”, de Bill Plympton
(EUA, 2008)

 

 

Idiots and Angels: o capitalismo negando asas ao gênero humano

O presente texto não tem a intenção de explanar, passo a passo, todo o roteiro e descrever minuciosamente quais as figuras do filme. Aqui somente pretendemos, através de alguns elementos captados deste, fazer uma leitura que vá além do que está em primeiro plano. Procuraremos, deste modo, entendê-lo no contexto social em que está inserido.


Com seus traços grotescos, cores mortas e ausência de diálogos, o longa-metragem animado Idiots and Angels (2008), logo à primeira vista, distingue-se do que tem sido apresentado nas animações das últimas décadas. No enredo, com exceção do protagonista Angel (anjo, em inglês), as personagens não têm nomes. A trama inicia-se e gira em torno de um sujeito carrancudo que, cotidianamente, acorda furioso para o que terá que enfrentar durante a sua jornada diária. Tendo uma rotina bastante entediante, a personagem principal sempre se irrita com o barulho do despertador e do pássaro que canta em sua janela: são coisas que lhe fazem lembrar que é tempo de se levantar da cama e dar passos no sentido de sair para o trabalho.


Pode-se inferir a partir do filme, uma descrição de como a vida do trabalhador transcorre numa sociedade capitalista. Sem motivação para o dia a dia, porém obrigado a  garantir o seu ganha-pão, o protagonista, para sobreviver, submete-se a uma vida que não lhe agrada. Seu trabalho é informal e ilegal: vende armas de fogo em um pequeno bar (do qual também é cliente) numa área movimentada de uma cidade grande. Apresentado ao longo do enredo sempre sob estresse, este personagem não sabe como lidar com as pessoas que encontra diariamente - melhor dizendo, interage de maneira rude - , seja no trânsito, quando discute e inicia uma briga com outro motorista, ou no próprio local de trabalho, maltratando frequentadores e uma trabalhadora do bar.

 

 

Apreende-se, a partir de uma análise sociológica da película, que a rotina alienada atravessada pelo nosso protagonista é uma das características de uma sociedade que se modela pela economia capitalista, na qual a razão de viver daqueles que precisam dos seus salários, em muitos momentos, parece encerrar-se na venda de suas forças de trabalho. Este tipo de sociabilidade exige, dos que dela participam, uma postura indiferente aos que os rodeiam - uma conduta egoísta - uma vez que para garantir os seus meios de sobrevivência, os indivíduos têm que, por exemplo, disputar entre si empregos ou outras formas de se adquirir dinheiro.


Nas palavras de Konder, em uma sociedade de classes, “os indivíduos tendem a ter deles mesmos uma visão mutilada, uma vez que não se veem como indivíduos integrados normalmente numa espécie. […] Passam a faltar-lhes condições que propiciem uma clara percepção daquilo que eles possuem de comum uns com os outros; e as diferenciações individuais passam a ser observadas independentemente da história concreta e das condições materiais de vida dos homens” (2009, p. 70).


Algumas das consequências que isso traz para as vidas dessas pessoas são expostas em Idiots and Angel, como a falta de reflexão e de prazer que Angel sempre está a demonstrar quando, citando exemplos, ele passa boa parte do seu dia ingerindo bebidas alcoólicas, apático a qualquer frequentador do bar, ou tem vontade de matar um homem simplesmente porque este lhe tomou o lugar em que ia estacionar o carro.

 


Podemos observar, no filme, uma sociedade repleta de indivíduos egoístas, antipáticos e mal-intencionados: todos que aparecem, quando não são estupidamente ingênuos, nada querem além do benefício próprio, a exemplo do protagonista. Trata-se de uma hipérbole da sociabilidade capitalista. Existem  também outras personagens importantes à trama, como o a faxineira, uma cliente e o dono do bar, que compartilham o mesmo espaço do cotidiano do homem carrancudo. Este se relaciona com aqueles por meio de rugidos e caretas, transmitindo, quase que em todos os “diálogos”, indiferença e desprezo, alimentando-se da tristeza alheia para alcançar momentâneas alegrias.

Um dos pontos que mais claramente se pode recortar, nessa linha, é a forma pela qual o protagonista enxerga e trata a faxineira do bar em várias cenas do longa-metragem. Nos instantes em que a encara, sente um impulso incontrolável de agarrá-la e ter relações sexuais com a mesma. Sendo uma sociedade que sustenta e é constituída pela ideologia patriarcal, a sociedade capitalista produz relações de gênero hierárquicas através da quais, entre outras consequências, as mulheres são tidas como um mero meio de reprodução biológica e satisfação do apetite sexual.


Como podemos encontrar em outros desenhos animados, neste, um fantástico acontecimento é o que dá rumo a toda a história: em casa, depois de despertar, o protagonista percebe que asas começam a brotar em suas costas. Olhando-as como uma aberração inexplicável que surge em seu corpo, o sujeito sempre as busca esconder ou remover antes de sair para trabalhar.

 


Porém, com a sucessão dos dias, a personagem principal nota que suas asas começam a tomar proporções cada vez maiores, fazendo-a, inclusive, ser discriminada no bar e, depois, no hospital, quando as pessoas fazem piadas sobre suas asas, enquanto aquela enfrenta uma fila para tentar entender o que estranhamente acontece com o seu corpo.

Quando as asas de Angel alcançam certo tamanho, ele percebe que pode empreender voos, porém, em consonância com esta nova habilidade, da qual ele faz uso para roubar outras pessoas, as asas que lhe surgiram também passam a exercer domínio sobre seu corpo. Mesmo agindo contra a sua vontade, o anti-herói  é coagido pelas próprias asas a evitar que as pessoas se agridam e a proibir que qualquer uma furte as posses de outras.

Aqui, podemos notar que os seus novos membros atuam sobre ele como a moral que rege a sociedade capitalista, a moral burguesa. Vale dizer que é esta que sustenta ideologicamente a sociedade regida pela relação capital-trabalho, cobrando dos indivíduos um comportamento que, fundamentalmente, repudia práticas que atentam contra a propriedade privada.

No seio de uma sociedade tão miserável, pestilenta e caótica, as asas da personagem principal tem como finalidade resgatar a moral burguesa “esquecida” pelos outros cidadãos. Alguém poderia contestar: “definir as atitudes heroicas do protagonista, dotado de asas, como 'guiadas por valores burgueses' é se precipitar, pois ele modifica a sua postura, primordialmente, em defesa da vida dos outros”. Em contrapartida, questionamos: e por que será que o heroísmo que move a personagem a faz por em risco a vida de um homem porque este assaltou aquele e o dono do bar? A priorização da propriedade privada frente a uma vida humana, quando assistimos centenas de direitos humanos sendo atropelados pela lógica do capital, não seria uma caracterização da prática economico-politica liberal?

Para Lenin, a ideologia burguesa, intimamente atrelada aos interesses de sua classe, obscurece aos indivíduos o fato de que “a principal causa dos excessos que constituem as infrações às regras da vida social é a exploração das massas, condenadas à miséria, às privações” (2007, p. 109).

Com o avanço da película, outras personagens, como o médico e o dono do bar, tentam extrair os membros estranhos que cresceram em Angel. Embora visem meios diferenciados, ambos sonham com um futuro monetário promissor, querem as asas para enriquecer, conseguindo, assim, adquirir um bom status perante a sociedade, independente do que isso cause ao condutor do enredo. Apesar da concorrência para possuir as asas, apenas um indivíduo as logra –  vale ressaltar uma interessante analogia: poderíamos dizer que isso é uma consequência comum a uma sociabilidade que, mesmo produzindo uma imensa riqueza, não oferece a maior parte da população sequer formas de desfrutá-la, negando-lhe asas.O dono do bar assassina a personagem principal para que possa usufruir o que antes pertencia a esta somente. Sobre isso, diz-nos Marx que “a concorrência isola os indivíduos uns contra os outros, não apenas os burgueses mas ainda mais os proletários, e isso a despeito de agregá-los” (2009, p. 91).

Com as asas em mãos, ou melhor, nas costas, o proprietário do bar sobrevoa a cidade procurando e explodindo todos os bares e estabelecimentos com quais dividia a procura do que, com o seu bar, ele tinha a oferecer, eliminando assim a concorrência. No dia seguinte, conquistado o monopólio, há um frenesi de consumidores no, então, único bar de toda a cidade. A ampliação gritante da clientela brinda o dono do bar com cifras exorbitantes, recompensa ao sucesso de seu ousado empreendimento.

O que conseguimos concluir a partir de uma análise crítica do filme é que, tudo que o diferencia em relação ao padrão dos longas-metragens de animação – além das melancólicas cores, os tristes semblantes das personagens e os traços nervosos que as contornam - , sugere que a arruinada sociedade moderna, é um meio social no qual a maioria dos indivíduos, desanimados com suas vidas aparentemente desconexas, só sentem a presença uns dos outros nos conflitos que acontecem, nos momentos em que podem externar seus ódios, medos e  angústias, com o intuito de tornar as suas vidas menos desgraçadas, depressivas: em outras palavras, é uma sociedade da insatisfação, que desmotiva aqueles que dela fazem parte, pois só se sentem realizados na medida em que depreciam e reduzem a vida dos que lhes rodeiam.
           

Embora o filme não procure abarcar as causas que geram essas individualidades, esforçando-se apenas em descrever os sentimentos das pessoas que agem contra o bem-estar umas das outras,  podemos visualizá-lo como um nebuloso lamento às condições de vida que o capitalismo impõe aos que mais sofrem com ele.

 

Referências Bibliográficas:

  • KONDER, Leandro. Marxismo e Alienação: contribuição para  um estudo do conceito marxista de alienação. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
  • LENIN, Vladimir Ilitch. O Estado e a revolução: o que ensina o marxismo sobre o Estado e o papel do proletariado na revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007.
  • MAGALHÃES, Belmira; SILVA, Geice. Trabalho, Capitalismo, Gênero: entender o imbricamento para agir. 2010 (no prelo).
  • MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
  • NETTO, José Paulo; BRAZ, Marcelo. Economia Política – Uma Introdução Crítica. São  Paulo: Cortez, 2007.

 

Marcus Vinicius de Almeida Lins Santos é graduando de Ciências Sociais da UFAL
membro do Grupo de Pesquisa/CNPq “Trabalho e Capitalismo Contemporâneo”
membro do Grupo de Pesquisa/CNPq “Gênero e Emancipação Humana”