“O Código Da Vinci ”, de Ron Howard
(EUA, 2006)

 

 

 

O Código e a alienação

A estréia da versão cinematográfica do livro o “Código Da Vinci”, de Dan Brown, trouxe polêmica ao abordar a hipótese de que Jesus Cristo era casado com Maria Madalena, e que a descendência gerada dessa união seria por de fato os herdeiros do poder cristão na Terra (no caso a Igreja Católica). Mas essa não é a principal complicação apresentada no filme. E sim por apresentar a idéia de que a cristandade deveria ter sido administrada por mulheres e não por homens. O que fica evidente no decorrer do filme pelas análises das obras do renascentista Leonardo Da Vinci pelos personagens de Tom Hanks e Audrey Tautou, que constataram a manipulação da igreja ao longo da história.


E para impedir que tal “verdade” venha a publico a Opus Dei, ordem religiosa dentro da igreja católica, pratica e manipula uma serie de atentados a membros de uma seita supostamente responsáveis contra a chamada Fé. Essa imagem negativa apresentada em relação à Igreja levantou uma serie de críticas por parte da Opus Dei no Reino Unido, que afirmou que o filme não passaria de
“entretenimento”. Mas também afirma que: "
...estamos indignados porque muita gente que não tem uma boa compreensão da Igreja Católica e da sua história tem se deixado enganar pela afirmação de Dan Brown de que 'O Código Da Vinci' é baseado em fatos e em teorias respeitáveis". (Folha)

Qual é a verdade que a ordem Opus Dei defende? E se o filme não passa de entretenimento, porque o protesto? Historicamente a Igreja Católica sempre utilizou-se da força na eliminação ou ocultação de elementos considerados prejudicial a uma ordem supostamente determinada pelo divino, tendo ela como representante deste na Terra. O livro de Dan Brown apresenta, em forma de romance investigativo, teorias históricas com relação a este efeito manipulatório. Contudo, um filme tem uma dimensão mais abrangente.

 

Um filme atinge uma quantidade maior de pessoas, e numa sociedade moldada pela imagem como a nossa, a repercussão poderia ajudar a desfragmentar elementos defendidos secularmente pelo catolicismo. E a revolta da igreja - principalmente da Opus Dei que no filme é apresentada como um agente, literalmente, capaz de realizar qualquer ato para defender os segredos seculares apresentados - , é para defender a manutenção desta ideologia.

A tentativa por parte deste grupo religioso, têm como finalidade perpetuar a manipulação secular da Igreja, ou aquilo que Marx classificou de alienação. Para Marx a religião é uma forma de alienação do real, por inibir aquilo que é intrínseco ao Homem: a reflexão. Ela privilegia um grupo em particular ao submeter a sociedade a uma consciência que mimetiza as relações num ordenado aparentemente indissolúvel, como no exemplo da possível bem aventurança do fiel no Reino do Céu após este ter desenvolvido uma existência virtuoso-contemplativa na Terra.

Essa ideologia perfaz que existirá sempre uma outra existência após essa, e por tanto não haveria a necessidade dos homens revoltarem-se contra a Ordem na Terra porque ela é um estado passageiro, para uma existência perfeita. Ou seja, está idéia leva os homens ao resignamento da suas emoções, impedindo-os de desenvolverem condições que os transcenderiam deste estado. Porque sendo esta uma determinação divina, e havendo a “ilusão” de uma existência melhor numa outra vida, os homens não se mobilizam contra essa opressão, por isso a afirmação que Marx ao denominar a religião como “o ópio do povo” (MARX, 1969; p105).

 

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo. (MARX, 1969; p105)

Entretanto como o desenvolvimento da sociedade, essas declarações apresentadas pela Igreja perderam a potencialidade. Hoje não existem, na maioria dos casos, barreiras para a crítica da religião nas mais variadas formas (salvo em alguns países, onde o poder teocrático ainda é potente, como alguns países mulçumanos, por exemplo). E o cinema é uma forma delas.

O livro o “Código Da Vinci” é um dos romances mais vendidos afirmam o jornal Folha de São Paulo e Revista Veja; e ele já causava descontentamento por parte da Igreja ao ver nele uma afronta direta a instituição. E com a adaptação para o cinema essa preocupação ampliou-se, principalmente de grupos conservadores, como a da Opus Dei britânica que insistiu para os produtores da Sony Picture (distribuidora do filme), incluíssem  um aviso explícito de que se trata de uma obra ficção, ou de que os fiéis fizessem orações antes de ver o filme.

A verdadeira felicidade do povo exige que a religião seja suprimida, enquanto felicidade ilusória do povo. A exigência de abandonar as ilusões sobre sua condição é a exigência de abandonar uma condição que necessita de ilusões. Por conseguinte, a crítica da religião é o germe da crítica do vale de lágrimas que a religião envolve numa auréola de santidade. (MARX, 1969; p106)

Toda crítica a religião é uma forma de emancipação porque permite ao indivíduo
perceber a mediacidade daquilo que está aparente, ou numa definição eclesiástica: santificado. Essa crítica permite a eles desenvolverem condições para a superação dessa condição dominante que camufla as desigualdades humanas sobre uma aparência sacra.


No caso da Igreja Católica, esta temeria o filme por considerá-lo uma desarticuladora do seu poder que vem estando em decadência ao longo do tempo. Principalmente quando o filme exibe pontos reflexivos em relação ao passado da instituição. Contudo deve-se levar em consideração a primeira declaração da Opus Dei de que o filme é entretenimento,e a função de um entretenimento é produzir nas pessoas um estado de pausa no cotidiano. Ou seja, ele também seria uma forma de alienação. O filme é uma produção da industria cultural que visa atender algum interesse particular, e como tal sua implicação reflexiva será limitada uma vez que ele está desempenhando a função para o qual foi produzido, ser consumido como uma mercadoria.

Mas mesmo sendo uma forma de mercadoria alguns pontos podem não passar despercebidos e levar a uma reflexão, como tem acontecido com outros filmes, como por exemplo o “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin e o “Metrópolis” de Fritz Lang, que mesmo fazendo parte de uma conjuntura capitalista não impediu que a crítica fosse feita.

 


O medo da Opus Dei ou da Igreja Católica como um todo é ver a sua imagem manchada por esse entretenimento, e o fato de não conseguir impedir a sua exibição, ou de impedir que seus seguidores o vejam, é uma amostra do declínio do seu poder frente ao poder da industria cultural que converte tudo em mercadoria, inclusive elementos, aparentemente, emancipatórios.

A alienação se caracteriza, portanto, pela extensão universal da “vendabilidade” (isto é, a transformação de tudo em mercadoria); pela conversão dos seres humanos em “coisas”, de modo que possam aparecer como mercadorias (em outras palavras, a reificação das relações humanas)... (MESZAROS, 1981; p08). Ou seja, mesmo havendo formas de contestação da ordem este acabará por ser assimilado pelo sistema capitalista e convertido numa mercadoria. Sistema que transforma uma realidade que, essencialmente, não necessita mais da religião para regulá-la. Portanto não é de estranhar-se que ele se aproprie de elementos contestadores da ordem, como o caso do filme, e converta isso numa mercadoria que exercerá um efeito reflexivo limitado nos consumidores.    

 

Bibliografia
MARX, Karl. Crítica a Filosofia de Hegel. In: A Questão Judaica. Laemmert S A. Série
Cultura Popular. Rio de Janeiro. 1969. p104 – 127.
MESZAROS, Istvan. Marx: A teoria da alienação. Zahar. Rio de Janeiro. 1981.
Folha de São Paulo. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60208.shtml

 

Mauro Thiago da Silva Giovanetti é aluno de Ciências Sociais da UNESP - Marilia